domingo, 6 de junho de 2010
por Paulo Mendes
"Só os cavalos são felizes, porque comem a paisagem", disse num verso inesquecível don Atahualpa Yupanqui. Tive poucos cavalos de meu. Na maior parte das vezes, montei nos alheios. Mas que parecia que eram meus, ah, isso parecia. Tratava a todos com respeito e cuidado, um pingo é um bicho sagrado, o senhor não acha? Lembro de quase todos, do jeito de cada um, dos mansos, dos caborteiros, dos traiçoeiros, dos bons de lida, dos passarinheiros. E dos pelos então, um mais lindo do que o outro. Zainos, gateados, rosilhos, mouros, oveiros, bragados, cebrunos, tobianos, ruanos, tordilhos, colorados, picaços, lobunos, baios, malacaras, douradilhos. Cavalos são como gente, cada um tem um jeito e é único, é preciso saber lidar com eles. Debaixo do couro, todos os bichos têm alma...
Daqui da minha janela consigo ver ao longe umas nesgas de campo, um mato verdejante, uma mancha escura que parece ser uma aguada. Então recordo do tempo em que vivia no lombo do cavalo, de sol a sol, às vezes sob a Lua prateada em longas rondas. Na época, por capricho, eu achava aquela lida bruta demais, sem futuro. Foi aí, meus amigos, que mudei de vida, deixei o campo e vim me arranchar na cidade, buscar novos caminhos. Nunca mais senti os bastos sob minhas pernas. Troquei as rédeas pelo volante. O pampa virou concreto; a imensidão de grama, sangas e capões virou uma arapuca de tijolos. Meus sonhos rodaram cedo nessa empreitada, mas não pude voltar no tempo, até porque não tinha mais terra para me aquerenciar outra vez. As coisas vão acontecendo, os amigos vão morrendo e nada mais pode ser reconstruído do jeito e da forma que já vivemos. O senhor não concorda?
Da aurora da minha vida trago os recuerdos mais doces e uma saudade escondida. Não é fácil confessar que, passados tantos anos, preferia ter ficado lá de onde eu vim, na minha querida Vila Rica, bebendo água nas cacimbas, correndo atrás de terneiros, comendo pão quente de forno, pescando lambaris no açude, caçando lebres e preás, galopando em pelo por dias e noites nas coxilhas e canhadas sem fim. Lá, eu tinha poucos amigos, mas via naqueles missioneiros muito mais sinceridade do que nos milhares de olhos alarifes que me olham por essas bandas. Mas de tudo, o que mais sinto falta é dos cavalos. Pelo atavismo da raça charrua, um gaúcho não pode viver a pé.
No meio dessas madrugadas frias, sonho com uma fantasmagórica cavalhada em tropel. Me acordo tentando escutar, ao longe, o barulho dos cascos no meio da polvadeira. Pressinto todos os cavalos do meu entardecer. A tropilha celeste que vem me buscar. Voltarei a galope para o berço eterno do velho Pai.
Regalo: Jornal Correio do Povo
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